Saturday, December 17, 2011

Uma semana (1)


Não podia dar errado. Porque ele e eu tínhamos catorze e afinal era só uma semana. Uma semana sem nenhum problema. Começou como um fim de semana como este, com esse mesmo vento quente, não faz tanto tempo assim. Decidimos que a inércia podia nos salvar, bastava ficarmos imóveis. Bastava não sair de casa, não sair da classe durante o recreio, não nos vermos depois do fim do dia. Acho que a ideia foi dele, mas podia ter sido minha, talvez eu tenha falado que também seria bom ter a lei do nosso lado. Como isso era impossível, devíamos pelo menos contar com um bom advogado. Então ele me olhou com aqueles olhos que você conhece. Eu não precisava concordar com ele, não dissemos nada, corremos até a faculdade da irmã dele. A Renata fazia direito ainda e o centro acadêmico da faculdade nunca havia expulsado a gente antes, não expulsariam agora.



A cidade era tomada por calor tão horrendo, o centro acadêmico estava abafado, apesar de todas as janelas abertas, e deixamos as mochilas na mesa, mas sentamos no chão. A irmã de Marcos passava lá quase todo dia. Davam fichas extras para quem escrevesse o nome na máquina e a Renata não conseguia passar o dia inteiro na biblioteca. Ela perdeu a última ficha, os jogos dela eram longos, ela veio até a mesa para calçar os sapatos. Teve de tirá-los das minhas mãos. Os saltos vermelhos que ela usava na faculdade. Eram para os dias pares, ela encontrava o orientador, que devia partilhar o mesmo amor que eu sentia por aqueles saltos. Era tão ignorante como sou agora. Naquele primeiro dia da nossa semana sem problemas ela estava com os saltos altos de vagabunda que eu amava. Ela não se importava em parecer vagabunda para mim. Renata não se importava comigo nem com ninguém. Mas eu não sabia disso ainda. Eu abria minha ignorância para o mundo. Mas não podia ou não queria saber, não queria saber, se o orientador dela também pensava a mesma coisa daqueles saltos altos.



Sou mais forte que essa neguinha, pensei, e podia derrubá-la e ela cairia sobre mim e daí entenderíamos tudo, mas soltei, deixei ela levar embora os sapatos. O irmão dela já estava de pé. Não sei se teria coragem de agir se ele não estivesse ao meu lado. Marcos e eu partilhávamos dos mesmos gostos, interesses parecidos. Queria que a irmã dele fosse assim, que entendesse que eu a queria de verdade, eu queria entender o que ela queria de mim. E porque era sexta-feira ela perguntou se queríamos cerveja. Queríamos. Eu também fiquei de pé. Deixamos o centro acadêmico, ela olhou para o céu e decidimos voltar. Sentamos todos respeitáveis à mesa, Renata pediu duas garrafas e pegou do balcão três copos. Copos americanos, outra paixão minha. O estudante que cuidava do centro acadêmico trouxe para a mesa duas garrafas e duas fichas de fliperama. Renata rabiscou o que me parecia um bilhete de amor, que entregou ao estudante, toda a minha alma empenhada não valia duas fichas de fliperama, mas era só o recibo. Ela me serviu primeiro, serviu Marcos e se serviu. Quando se ocupava de servir e de beber era toda cerimônia, rodava o copo três vezes com a mão direita, observava a nós dois pelos cantos dos olhos, ela disse saúde e virou o primeiro copo e bebeu tudo e só então relaxou a expressão. Nunca sabia de imediato se estava brava ou feliz. Renata era completamente louca. Esse foi o começo oficial daquela semana. Ela começava mais cedo do que você imaginava, com esperança. O que podia dar errado ainda não havia aparecido. Você devia estar dormindo em algum lugar longe de gente, aposto que num quarto com ar-condicionado. Ou naquele apartamento todo arejado do seu amigo o velhinho que era amigo da mãe de vocês.



...

0 Comments:

Post a Comment

<< Home