Thursday, December 29, 2011

Carta?



Difícil ser direto, porque parece sempre ilusório e não confiamos nas palavras que usamos, porque sabemos como as usamos. Talvez, disse uma voz esquecida, só usamos palavras para tratar do que já se desfez para nós. Para o que é vivo as palavras não bastam. E deveria ser por isso então que costumamos carregar a fala de emoções? As palavras as modulam, mas o sentido delas não nos comunica. As palavras apenas modulam os sentimentos numa conversa. Eu não sei se é assim.



Só agora tenho a liberdade para escrever o vocativo, a você que recebe estas palavras, minha filha. Ainda que tenhamos pouco o que dizer um para o outro, temos o que sentimos. Temos todas as expectativas que isso nos traz. Com as emoções represadas, seu irmão constrói mundos, derrama-se em textos. Você é de poucas palavras, poucos textos. Mais leitora.



E tenho os meus sentimentos. Amor, curiosidade. O senso da falta de preocupação com meus filhos. Seu irmão imagina que qualquer raiva ou mágoa que tivesse pela sua mãe contaminaria meus sentimentos por vocês. É o que ele demonstra. E está errado. Trocamos algumas mensagens até agora e ele insiste no mesmo ponto, ele escreveu: “se não vai falar de por que nos abandonou, para que perder tempo conversando?”. Falo dele porque não sei muito de você, Victoria. Sei quase nada, mais sinto que sei.


Você gosta de carnes. Quer almoçar comigo durante a semana que estarei na capital? Há alguns restaurantes ainda bons perto do meu hotel. Ofereço cortes altos, mal passados. E bebida, se já aprendeu a beber com seus amigos novos.


Uma memória minha, que ofereço a você, no strings attached, recordo a sua expressão vigilante ao lado do fogo, à espera das primeiras lascas de carne vermelha. E de como mordia a carne e usava as duas mãos para arrancar um pedaço. Você se lembra desses momentos? São memórias minhas. Não estão em nenhuma fotografia. Você comia com gosto. E num abandono que a sua mãe diz que você reserva apenas aos momentos em que sente que não está sendo observada ou quando não se importa.



Você já deve ter compreendido que ela ainda te ama. Mais do que você pode imaginar e menos do que você pode querer.



Preciso de um conselho de você. Seu irmão espera que eu diga “sinto a sua falta” e “preciso de você”. Você acha que devo responder o que ele quer ouvir? Ele se importa com a verdade. Nem eu nem a sua mãe nos importamos muito com a verdade. Como é você? E como você acha que devo responder, se devo responder.




Estimas,


do seu pai.


[...]



PS: Estarei entre os dias ... e ... no hotel ... Se não puder responder até lá, deixe um recado na portaria.

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