Tuesday, December 23, 2008

4. Anotações de Renata em voz alta:


Vários dias sem ter muito a dizer. Um silêncio fantástico de idéias e opiniões. Gosto de ver os últimos raios do sol quando eles recortam a cidade. Observamos a estrada, os prédios distantes sendo iluminados enquanto as casas e as construções já foram tomadas por uma sombra. O pasto aberto, as vacas. Algumas árvores entre nós e as lavouras, as lavouras de cana. O verde do mato novo e o marrom avermelhado da terra. Cupinzeiros espaçados pelo pasto aberto. E as torres de transmissão. Valetas por onde a água escorre, espaços intocados por nós, grandes obras de cimento, corredores, túneis, trevos, pontilhões. E me volta o que Gepetto escreveu à margem do meu diário:



“Na faculdade, porque não estava trepando, fazia grandes discursos.”



E daí para o monólogo com JS.



Um pária. Foge de todos os compromissos. Se pudesse, Bruna não iria ao próprio velório. Você não se lembra dela? Daquelas que ficam sempre pelos cantos ou no fundo com aqueles universitários idiotas que o Marcos arrastava para as festas. Pleonasmo dizer idiotas? Os “benefícios de uma educação clássica”. Não li o Dostoievski o suficiente, JS. Você acha que eu só falo dela, JS? Também falo de você. JS. JS. Quer ouvir? Amo JS. Só penso em JS. Se tivesse nascido com a beleza e inteligência dela, aí você talvez quisesse casar comigo, ter um filho comigo, mesmo dizendo que não olha para ela. Eu digo que não penso em casar, mas você não precisa acreditarem tudo o que eu digo. Tenho uma boceta.



E a resposta de JS, algo sobre não haver relojoeiro cego regendo o universo, mas um carpinteiro manco. E passou a medir as proporções dela e calculou que se conseguisse desossá-la, Renata teria o volume da barriga dele.




0 Comments:

Post a Comment

<< Home