Contos da Emma
A casa
A casa do senhor Oda fica depois da linha do tem, já separada da cidade pelas árvores que demarcavam o parque dos índios.
Erma
Erma era muito leve. Os traços eram delicados e sob aquele frio ela tremia e eu pensei num filhote. Erma parecia ainda mais um pequeno animal.
O nogue
Nogue é como os índios chamavam aquele monstro que se esconde atrás das cabines dos banheiros públicos e das paredes dos pontos de ônibus cobertos. O nogue gosta de se esgueirar até esses lugares e começa a gemer como um cachorrinho ou uma criança pequena balbuciante, na expectativa de atrair a atenção das pessoas. Quando alguém olha atrás da cabine ou da parede esperando ver um cachorrinho perdido, encontra um nogue assustador, com seu corpo atarracado uma cabeçorra com sorriso sardônico, com dentes de três polegadas, com um sorriso que atravessa a cabeça imensa e arredondada do monstro.
A sombra das árvores
Com uma adaga é possível prender a sombra de qualquer criatura. O velho da casa da rua de cima prendia as sombras das árvores, as árvores cresciam todas retorcidas, deformadas.
A rua de cima está cheia de árvores que lembram corpos humanos. Galhos que lembram braços e pernas, cascas grossas e nódulos que lembram rostos.
Sobre nossos vizinhos
Alguns podem ter vizinhos que são monstros disfarçados. Os monstros perdem muito tempo se disfarçando, para esconder suas feições monstruosas e habitar as casas humanas e se passar por humanos.
Evitamos olhar atentamente nossos vizinhos para não descobrimos que são monstros. Os monstros ficam muito bravos quando seus disfarces são descobertos por acaso e geralmente estraçalham aqueles que descobrem seu segredo.
A fofoca
Jodelle tinha três olhos. Essa era a acusação e a fofoca da vila Sônia. Pode uma prostituta ter tal defeito físico? Jodelle era muito bonita e bem jovem, e reconheciam seu talento, mas não deixava de causar repugnância em algumas pessoas da cidade.
A casa ao lado da igreja
Dora Diamant está entre nós. Ela está aqui entre nós, entoam os fiéis da igreja. Ele acorda e vai lembrando e percebendo como está cada vez mais surdo, e ateu.
Nomeação
O advogado para a amante num domingo de sol nascente:
- Meu avô Bonadio foi eleito Papa. E hoje saiu a sentença contra Eustáquio Gomes, vão elegê-lo vereador numa cerimônia antes do cadafalso. Prefiro Eustáquio Gomes. – E suspirou o jovem bacharel.
A chanka
Aproximadamente, uma chanka é uma viúva que conseguiu viver bem mais do que seu marido, vivendo bem mais do que qualquer pessoa normal.
Para esconder seu peito estufado, horrivelmente oco, as chankas se cobrem de xales, pelúcia e penas, sendo por isso confundidas com as voladoras, aquelas pobres criaturas que são afogadas em tanques comunitários ou são apedrejadas até a morte pelos escolares.
Registro
Uma voladora uma vez se encantou pelo filho mais velho do padre. Essa história está registrada nos arquivos da prefeitura. E ela só não foi feliz porque depois da quaresma o filho do padre entrou na escola e logo saía em bando, com os outros colegas, com pedras no bolso.
O ano
O ano preferido entre as garotas de cabelo bem preto e roupas escuras é cheio de subentendidos, gestos secretos, meios sorrisos e olhares intensos.
A cerveja
Depois de uma cerveja o teste de cores da TV aparecia nos olhos da mulher. Ela via primeiro um chiado cinza, a estática, e daí as barras coloridas. Curei meu resfriado ficando rica, ela me disse, com um sorriso obsceno.
A farsa provinciana
Todos os dignatários haviam nascido em Kalamazoo, diziam os registros oficiais. E eram enterrados ao som de Pennsylvania 65000.
Quando a farsa ficou ridícula demais o dono do jornal de esquerda e as senhoras da sociedade fizeram um campanha racionalista.
A partir de 73, todas as mais ilustres autoridades da cidade exibiam certidão de nascimento do cartório de Kabuletê.
A manchete
O fotógrafo e o motorista da prensa brincavam de empilhar clichês e lâminas de metal. Não havia o que fazer. Lá fora, longe da fumaça e dos bombeiros, os donos do jornal bolavam a próxima manchete. Debatiam entre a Copa do Mundo e o empastelamento do jornal.
Na cidade
O sol surgiu depois do almoço, ao final de três dias e três noites de chuva torrencial. O motorista do caminhão de gás e o vendedor sorriam. Atravessavam a cidade depois da chuva e as crianças saiam de suas casas e corriam pelas ruas ainda molhadas, pulando as poças de água, correndo na direção do sol quente, produzindo longas sombras no pavimento.

0 Comments:
Post a Comment
<< Home